Terça-feira, Julho 04, 2006

No one knows (anyway)



O aeroporto é mesmo um lugar intrigante. Pra mim é cada vez mais triste. As lágrimas que correm por lá são cada vez mais um mistério. Nunca sei se os abraços são de boas vindas ou daqueles mais tristes, os abraços de despedida. Fico me perguntando se de longe as pessoas sentem o peso desse abraço, se conseguem imaginar as palavras que são ditas bem baixinho, bem pequenas nos ouvidos. Tudo é frágil e, em poucos minutos, alguém vai embora sozinho, na clássica solidão dos portões de embarque. É possível se imaginar , escrever ou cantar sobre essa imagem, mas só quem está lá pode saber. E quando o aeroporto se transforma em mais um episódio do ordinário, quando as pessoas que se recebem e se despedem não passam de vultos inertes e repetitivos, quando os bares, restaurantes e lanchonetes são só uma desculpa, daí cada vez mais aqueles que vão embora estão sós, e choram suas lágrimas quentes que ninguém tem condições de entender. Os que partem choram o seu choro mais doído de toda a vida, porque toda a vida agora é a primeira experiência da incerteza. E a solidão dessa incerteza é tão íntima que, depois de muito tempo, é possível perceber como são solitárias as pessoas. As lágrimas, o medo, os gritos que imploram para viver, as lembranças de tudo o que já foi, a solidão dos portões, a frieza do caminho até o avião, nada disso pode ser verdadeiramente compartilhado. Pode-se falar, tentar, esboçar, mas a dor é sua. E não é só dor, é aquele monte de coisas que você não tem como explicar. E as pessoas têm pressa. Elas não estão sentindo, elas nem querem sentir. E é quando você vê que não tem saída pra essa solidão tão íntima e tão estranha. E enquanto não passa, você sente frio sentado no chão, tentando não se deixar levar pela correria, pela ansiedade, pelos atrasos, pela vaidade, pelos avisos de voz, pelas vozes impacientes, pelo tempo que não passa, escondendo de si mesmo a vontade de encontrar um abraço mais quente e confortável quando finalmente desembarcar na primeira parada do seu destino.