Sábado, Julho 29, 2006

Deslumbramento (é foda)

Se tem uma coisa que me apavora por aquí é o deslumbramento. Parece que ir a Europa é sinônimo de achar que tudo aquí é melhor e mais bonito, mais tudo. Outro dia saí com Joana aqui pelo centro de Barcelona, fomos resolver coisas práticas da vida e acabamos dando de cara com o que se poderia chamar, guardadas as devidas proporçoes, de a avenida 7 de Salvador. Antes de chegarmos exatamente lá, Joana parou no meio da rua, de frente pra uma praça enorme e bonita, e perguntou se eu nao achava aquilo o máximo, as praças, as árvores, as fontes de água, as obras de Gaudí por todo lugar, enfim. Eu nao gostei muito daquela pergunta, principalmente porque, sim, eu achava bonito, cada cidade com a sua beleza, mas ela tinha um tom de deslumbramento que me incomodou. Barcelona é linda mesmo, mas pra mim é linda por coisas bem menores, como os becos vazios das ruas do centro, que sempre escondem lojas as mais interessantes e com preços mais interessantes ainda, pelas mesinhas dos cafés que se encontram em qualquer bairro que ficam do lado de fora, na calçada, dando uma sensaçao gostosa, nem sei explicar. As coisas megalomaníacas sao apenas megalomaníacas, nao enchem meus olhos como, por exemplo, o refrigerante infinito do Ikea ou a organizaçao do metro, coisas que enchem os olhos de alguém que viveu a vida toda na desorganizaçao de Salvador. Mas a onda com o deslumbramento é que agora, ainda mais, eu posso ver como cada cidade vive com suas belezas, é que muitas delas nada tem a ver com grandes obras e construçoes. Isso que me encanta, muito mais que as obras de Gaudí que, muitas vezes, nem me apetecem tanto. Barcelona me encanta por milhoes de coisas, mas nao sei, nao se sinto deslumbrada. Privilegiada, talvez, mas por motivos que, para alguns, seria bem difícil de entender.