Domingo, Novembro 05, 2006

You must keep on dreaming

É o que eu me digo todos os dias de manhá, quando acordo e todos aquelas problemas e preocupaçoes me vêm à cabeça, quando me vem a vontade de desistir de tudo e voltar pra casa, quando as esperanças que até agora me sustentam deixam de existir por algum motivo misterioso. É, eu tenho que continuar sonhando. Às vezes nao entendo bem pra que, mas eu tenho, eu tenho...

Quando tudo começa

Depois que o curso começou, um monte de coisas loucas e inesperadas também começaram. As dúvidas retardadas, as preocupaçoes desimportantes, os problemas práticos de todos os dias... Mas eu vou falar só o que é legal, o que todo mundo me pergunta e quer saber.

Enfim que as aulas começaram, um curso prático de um ano de cinema, onde vamos produzir cada um dois filmes, um em vídeo e outro em película. Somos sete pessoas na sala, eu sou a única mulher (e isso tem suas vantagens). Tem o Carlos e o Oscar, que sao catalanes, o Sebastian que é mexicano, o Ibai e o Jrutz que sao bascos, e o Marcos que é brasileiro. Na aula de fotografia ainda tem a Mariona e a Ana, as duas também de Catalunya. Quem me conhece sabe a dificuldade que eu tenho de gostar das pessoas, mas eu juro que eu melhorei e gosto praticamente de todo mundo, apesar de nao estar fazendo questao de fazer muitos amigos. Nao sei por que nao me sinto muito à vontade com os "estrangeiros", de fato nao sei explicar isso.

Para o que eu quero, acho que está saindo bem. Temos classes de fotografia, câmara, roteiro, pós-produçao e direçao de atores. Tento tirar o maior proveito de tudo, acostumada que sou com classes e professores ruins. Hoje eu tenho muito claro algo que aprendi na Facom, que somos nós que temos que nos desesperar para conseguir uma boa aula, nem sempre é o professor que nos vai dar isso. No caso desse curso, a maior parte dos professores sao bons e isso é um alívio.

Nao tem muito o que dizer além disso. Os dias estao passando e tudo o que eu faço é vivê-los profundamente. Estou ansiosa para escrever meu roteiro e fazer meu filme, mas eu descobri que esse meu prazer eu nao posso compartir por aí, sao pouquíssimos os que entendem. Isso é chato. Mas por outro lado pode ser muito bom. Enfim, é só isso. Nada (de)mais.

Friiiiiiiiiio

Demorou, mas a merda do frio está chegando. En Barcelona, sí... Tenho amigos que estao en Londres nesse exato momento e que já devem estar verdadeiramente sofrendo, mas estando em Barcelona eu ainda tinha um pouco de esperança. Pois é, os últimos dias aqui foram frios, cada vez mais, e está tudo muito estranho. As pessoas mudam, as ruas mudam, os horários e as vontades mudam também. As roupas, as escolhas, os humores, as rotinas, os planos, as oportunidades. O frio é quase um bicho papao, e vai chegando de leve, te assustando um pouco mais a cada dia. E te dá medo. Me dá medo, pelo menos. Essa será minha prova de sobrevivência aqui no velho continente.

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

Tener una vida

Eu quero ter uma vida em Barcelona.
Ainda nao tenho e isso me tira o sono todos os dias.
Me pergunto se estou com pressa, se nos meus 20 e poucos anos eu já nao estou querendo demais. Mas daí eu penso que isso nao faz muito sentido. Eu fiz escolhas, nao foi? Nao é possível que seja taaaaao difícil. Ou que eu seja assim tao fraquinha.
A vida que eu quero é simples.
Segunda e quarta ir pra aula de catalao de 8h às 9h.
Terça e quinta ir pra academia deixar de ser sedentária de 8h às 9h
Estudar de manhá no meu curso de cinema, de 10h às 14h, todos os dias da semana.
Trabalhar na Fnac de segunda a sexta, das 16h às 21h.
Fazer extra em restaurantes no fim de semana, das 17h às 00h.
Ler, estudar, ver filme em casa e no cinema e tomar uma cervejinha com pessoas legais nas horas vagas.
Ter dinheiro pra comprar meu computador, uma câmera digital super potente e qualquer coisa na rua que eu quiser comprar.
Parece muito?
Parece que eu nao posso?
Eu acho que parece que eu posso.
Mas a vida aqui só fica fácil quando você dá certos passos que nao ficam muito claros desde o início. Isso é estranho. É muita, muita coisa ao mesmo tempo, e ainda nao consigo dizer se estou sendo inteligente o bastante para aprender.

Vivir de cine

Outro dia me perguntou um amigo o por que de eu querer fazer cinema, quais as minhas motivaçoes. Engraçado que esse é uma típica pergunta para quem adora se perder em divagaçoes filosóficas ou sei lá o que. A verdade é que fiquei tentada a fazer isso, princpalmente quando aprendi com um professor querido que eu me questionava pouco sobre as minhas escolhas. Eu as fazia e pronto, estavam feitas, o que me interessa entao é fazer planos e colocá-los em prática o quanto antes. Ou seja, uma série de erros, mas que agora nao vêm ao caso.

Mas a resposta pra isso me vem logo, como se sempre estivesse aqui, ainda que eu nunca tivesse "respondido" isso pra ninguém. Nunca fui nenhuma super contadora de histórias e nem nunca pensei em fazer disso uma profissao, a minha vida, mas sempre eu amei o fato de poder imaginar as coisas, de contar a vida do jeito que ela poderia ser, ou do jeito que eu queria que ela fosse. Sempre fiz isso escrevendo. Nao romances, contos, mas espécies de crônicas - nao muito boas, by the way. Mas quando eu descobri o potencial do cinema, o que se pode fazer com conjuntos de imagens bem pensadas, eu vi que era a melhor forma do mundo pra se contar essas histórias, esses mundos possíveis e imagináveis, ou até impossíveis e imagináveis. Eu amo essas histórias, eu amo tudo o que eu nao conheço e que, ainda assim, posso contar. Eu amo poder inventar uma história que com a qual as pessoas possam se identificar. Ou que se emocionem, que riam, que percebam como foi composto e pensando aquele plano, aquela sequencia, aqueles personagens, enfim. Nao consigo pensar en nada mais prazeroso agora, a sensaçao de que preciso viver um pouco desse mundo que eu imagino a todo o momento, de que eu posso brincar com imagens e sons e pessoas e histórias, e fazer disso a minha vida.

Claro que dirigir um filme é algo bem mais complexo que isso, mas o que me ocorre sempre quando penso nas minhas escolhas é que eu quero poder contar sempre todas as histórias que passam pela minha cabeça. Por algum motivo obscuro eu sei que eu posso fazer isso bem, que as pessoas querem ouvir, que eu posso comover, divertir, fazer rir diferentes tipos de pessoas. E viver disso! Aahhhhhh, viver disso...

Domingo, Agosto 27, 2006

Almoço brasileiro

As coisas aqui em casa estao ficando cada vez melhores. Entre muitas conversas (sérias) que tenho tido com Vero, combinamos animadamente de fazer um almoço brasileiro, ou seja, uma feijoada com farofa! Falei tanto da feijoada, e principalmente da farofa, que tanto ela como Antonio ficaram desesperados pra comer! Entao combinamos de fazer o almoço, nós quatro juntos, com aquele ar de almoço de "reconciliaçao" ou "confraternizaçao". Antonio inclusive se dispôs a comprar a cerveja e tudo.

Enfim, quarta-feira passada rolou a feijoada. Eu cozinhei tudo. Saí pra comprar carne, calabresa, bacon, os temperinhos todos e o feijao, que aqui tem pelo menos dois nomes: judías e alubias. Eu fiquei morrendo de medo de nao conseguir feijao ou de que o feijao daqui fosse uma merda porque eu ia em queirmar depois de tanta propaganda! Um dia antes eu tive que pedir socorro pra minha mae porque tinha me esquecido o processo de fazer o feijao (só fiz umas tres vezes antes) e também porque eu ia fazer na panela normal e nao na panela de pressao.

Enfim que quarta-feira eu acordei cedo e fiquei o dia inteiro cozinhando. Jô estava dormindo porque tinha dobrado no dia anterior, Vero estava em entrevistas de trabalho e Antonio estava trabalhando. Umas 15h Antonio chegou com vinho e cerveja, todo animado, e uma hora depois chegou Vero ainda mais animada. O feijao já tava pronto, terminei de fazer o arroz, fiz a farofa e ainda fiz umas batatas fritas pra acompanhar. Sentamos todos na mesa, arrumamos ela para quatro pela primeira vez, e comemos todos felizes! Vero já tinha comido feijao antes e adorou comer outra vez, mas Antonio adorou absurdamente. Ele comeu uns três pratos e se jogou na farofa. Foi engraçado o españolito (como a gente chama ele quando quer sacanear) comendo nossa comida pesadona daquele jeito.

Foi tudo feliz e tranquilo, conversamos como quê, demos muita risada... Todo mundo é muito legal quando quer ser, essa é uma das verdades universais. Me diverti muito, parecia que nunca nada de bizarro tinha acontecido. Vero me falou mais de uma vez que a comida estava muito boa e sorria de um jeito bonito. Mais tarde ela me agradeceu por ter cozinhado pra todo mundo e que devíamos fazer isso mais vezes, mas que depois seria comida uruguaia! :)

O feijao sobrou porque eu fiz um montao e até hoje todo mundo comeu de novo. Só hoje que tinha um pouquinho e eu guardei pra Joana, a única que nao comeu de novo. Nesses dias eu tenho passado muito bem com Antonio e Veronika. O almoço também serviu pra declarar que essa onda de comida de um e de outro nao tem nada a ver, que eu posso cozinhar pra eles, eles pra mim, podemos dividir a sobremesa ou o espaço na geladeira. Isso muda tudo, é impressionante. E qualquer outro assunto mais "pesado" se torna tranquilo, bobo. Ontem mesmo Vero comprou limao e fez caipirosca! E fez um copo só pra mim! De noite ainda ficamos os três de onda vendo um jogo na televisao e conversando sem parar, como se o tempo nao passasse...

Bom, tirei poucas fotos do almoço que estao em http://www.flickr.com/photos/kamtelle/

Terça-feira, Agosto 15, 2006

Compañeros de piso (!otra vez¡)

Quando eu cheguei aqui eu sabia que Joana morava com um casal, Antonio e Veronika, mas só estava Antonio aqui na ocasiao. Por um mês (sendo duas semanas as que eu estive aqui), Veronika esteve em Bangladesh para a parte prática da sua pós em Serviço Social. Foram duas semanas estranhas porque ela estava em toda a casa, todos falavam dela, as coisas dela estavam por toda parte, mas nada de ela estar vivendo lá! Acabei ficando muito ansiosa em conhecê-la e a espera acabou valendo a pena porque ela é um doce de pessoa. E diante de todo o estresse que tava rolando com Antonio, Vero chegou na hora certa. Tudo pareceu melhor com ela, ainda que alguns problemas, claro, tenham persistido.

Vero é uruguaia. Eu nao conheço nada nem ninguém do Uruguai, mas a tendência de me sentir mais próxima de uma uruguaia que de um español (Antonio) é muito grande, talvez porque sejamos as duas sulamericanas e, no fundo, eu imagino que ela deve ser um pouco mais como nós, brasileiros, mais carinhosa, mais divertida, mais próxima, mais solidária. Engraçado que eu percebi aqui como os brasileiros podem ser solidários, como sao incapazes de se importar por coisa pequena. Sei lá, os espanhóis te olham feio por causa de uma garrafa de água ou de um ovo da geladeira. Nao nos imagino tendo sequer coragem de fazer uma coisa dessa.

Eu já tinha simpatizado com Vero quase gratuitamente, mas ela me ganhou num dia em que estava fazendo o almoço dela e de Antonio e me convidou pra comer com eles. Colocou uma cadeira pra mim na mesa e me ofereceu da sua comida. Aquilo me surpreendeu muito! Antonio jamais faria isso e, em duas semanas, eu tinh "entendido" que a minha comida é só minha - oferecer era "intimidade" demais. Quando eu sentei na mesa com ela, eu senti que podia ser brasileira de novo, se é que isso pode ser entendido. E foi incrivelmente bom.

Depois disso só melhorou. Um dia acordei e todos os pratos da pia estavam lavados. Eu e Jô nunca deixamos louça suja na pia, só às vezes de madrugada deixamos uns copos, que lavamos assim que acordamos no outro dia. Vero tinha lavado os copos. Claro, nao custa nada lavar uma coisa ou outra, ainda mais quando voce já está lá com a mao na massa. Outro dia, essa semana, eu fritei umas beringelas e dei pra ela experimentar, ela ficou toda contente. E também me deixou entrar no quarto dela, sendo que Antonio sempre deixa a porta fechada, nao entra ninguém! Vero me convidou pra entrar, me convida sempre, me mostra coisas. Até me deu um mapa de Barcelona de presente outro dia. E daí uma lista de coisas, sem contar o jeito tranquilo dela, sua forma de agradecer por qualquer coisa, o seu nao-puder em tocar as pessoas, em chegar perto. Veronika toruxe (talvez de volta) pra essa casa um monte de paz e sossego, e mais uma vez é prazeroso viver aqui, dividir todos os espaços dessa casa, de repente dá prazer conhecer essas pessoas estranhas, aprender a conviver e lidar com tudo isso.